Professor Odilon Pancaro Cavalheiro
Coordenador do Grupo de Pesquisa e
Desenvolvimento em Alvenaria Estrutural - GPDAE
Universidade Federal de Santa Maria – RS
odilonpc@ct.ufsm.br
Por uma questão cultural, historicamente diversos países do mundo, como Estados Unidos, Canadá e países europeus, entre outros, têm empregado externamente em suas construções alvenaria de tijolos cerâmicos face à vista, maciços ou com perfurações horizontais ou verticais, mas de tamanho reduzido como o que conhecemos no Brasil. Mas, na realidade esta “parede externa” é apenas parte de um conjunto mais complexo, onde na parte interna se tem a verdadeira estrutura (sistema aporticado metálico ou de concreto armado e devidas alvenarias de vedação) e, nos casos de alvenaria estrutural, paredes de blocos de concreto ou cerâmicos, com vazados verticais. Entre estas duas “paredes” existe um contínuo espaço de ar com ou sem material termicamente isolante.
A adversidade do clima nos países citados tem sido o fator preponderante para a adoção de paredes duplas. No Brasil não é usual a utilização de tal composição de parede nas edificações residenciais, salvo casos especiais de obras de alto padrão. O clima tropical e a própria situação sócio-econômica de nosso país são, na realidade, as causas determinantes da utilização quase que exclusiva de paredes simples, em geral com espessura de 14cm mais revestimentos (ou mesmo sem), na alvenaria estrutural.
Mesmo nos países desenvolvidos, a busca por soluções alternativas racionais de menor custo para as edificações tem sido uma constante, junto com as preocupações ambientais e de desenvolvimento sustentado. A moderna alvenaria estrutural começa claramente a ganhar espaços principalmente na Europa. As paredes duplas e os tijolos passam a ser substituídos gradativamente por paredes simples de blocos modulares com vazados na vertical, como na Alvenaria Estrutural brasileira, mas de espessuras maiores.
Um dos mais novos conceitos em alvenaria, desenvolvido ultimamente, é a Alvenaria Rolada. O sistema, utilizado em vários países da Europa, foi criado na Áustria pelo grupo Wienerberger, maior produtor mundial de blocos cerâmicos vazados. A Alvenaria Rolada emprega blocos com superfícies de assentamento retificadas, com precisão de 0,5mm, o que permite aplicação de argamassa de no máximo 3mm de espessura, depositada sobre a área útil do bloco através de um rolo. Estes blocos, desenvolvidos para possibilitar rigorosa isolação térmica, sem necessidade de componentes de isolação complementares, apresentam largura de 375mm, altura de 249mm e comprimento de 250mm.
Sem dúvida, a Alvenaria Rolada, em parede única, representou um avanço em relação ao tradicional sistema de paredes duplas (com isolante térmico), simplificando a execução da parede, tornando-a mais econômica, e sem perda da performance térmica. O consumo de argamassa é bastante baixo, sendo os sacos da mistura industrializada entregues junto com os blocos na quantidade correta, com o custo já incorporado no preço destes, simplificando sensivelmente a gestão destes insumos no canteiro.
Deve-se considerar na Alvenaria Rolada, no entanto, que uma junta tão fina de argamassa, não tem condições de absorver movimentações higro-térmicas e mesmo pequenos recalques de apoio que a estrutura venha a sofrer. Estes esforços deverão ser absorvidos, basicamente, pelos blocos, que pelo seu peso (17,3kg), robustez e resistência à tração, apresentam condições favoráveis para tal. Com blocos mais leves, como os usualmente empregados no Brasil, com largura de 140mm (peso da ordem de 6 a 8 kg), uma junta de argamassa tão fina possivelmente não permitiria um bom desempenho da parede frente aos agentes citados.
Diversos componentes são utilizados na execução das alvenarias de parede únicas, dentro os quais desperta atenção o bloco “multi-ângulo” , pelas possibilidades que o mesmo oferece ao arquiteto para projetar paredes segundo as mais diversas direções. O bloco, na realidade considerado como componente de pilar (possui vazado para colocação de armadura), é facilmente separado em duas partes.
O aspecto mais significativo das informações no presente artigo provém, talvez, da constatação que a moderna Alvenaria Estrutural na Europa começa a ter pontos muito comuns com a Alvenaria Estrutural Brasileira. Aqui não se chegou, ainda, na era dos blocos cerâmicos retificados, mas é inegável, porém, que, por não se ter o mesmo rigorismo de desempenho térmico das edificações européias, as construções em alvenaria no Brasil se tornam mais econômicas e o Sistema de Alvenaria, como um todo, é mais ajustado em termos de coordenação modular, face à utilização de blocos de mesma largura em toda a obra. Isto permite uma amarração mais eficiente e melhora a construtibilidade. Na Europa, como a preocupação maior é a envoltória da edificação, muitas vezes a parede externa precisa ser “rasgada” para permitir a amarração de parede interna e o respectivo isolamento térmico.
A experiência européia com relação à Alvenaria Rolada de juntas finas, aqui retratada de forma muito reduzida, poderá ser útil no sentido de sensibilizar a comunidade da alvenaria cerâmica brasileira, para começar a pensar na possibilidade de produção de blocos retificados e com maior eficiência térmica. Seria necessário, vencida a etapa de retificação dos blocos, profundos estudos teórico-experimentais com relação ao comportamento de juntas finas de argamassa de 1 a 3mm de espessura, em blocos cerâmicos de 140mm de largura e grande área de vazados, como os usualmente empregados no país. O desenvolvimento de misturas de argila com materiais capazes de gerar vazios após a queima, aumentando a porosidade do material poderá, por si só, ser uma linha de pesquisa a ser perseguida para obtenção de blocos de melhor desempenho térmico.